Cesare Battisti diz nunca ter matado ninguém

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Pivô de uma crise diplomática entre Brasil e Itália, o ex-guerrilheiro italiano Cesare Battisti, de 52 anos, disse em entrevista exclusiva à revista Istoé desta semana que nunca matou ninguém. Battisti foi condenado à prisão perpétua em seu País por crimes cometidos entre 1977 e 1979, quando era membro do grupo “Proletários Armados pelo Comunismo” (PAC). Ele é acusado de ser o responsável pelas mortes de quatro pessoas durante os anos de chumbo da Itália, quando militantes de esquerda se armaram para combater o governo.

“Eu nunca matei ninguém. Eu nunca fui um militante militar em nenhuma organização. Nem na Frente Ampla nem nos PAC, onde fiquei dois anos, entre 1976 e 1978. Saí dos PAC em maio de 1978, depois da morte de Aldo Moro (o ex-primeiro-ministro da Itália sequestrado e morto pelas Brigadas Vermelhas)”, revelou Battisti à publicação.

Segundo o ex-guerrilheiro, o refúgio político concedido pelo Brasil no dia 13 deste mês foi um ato de coragem e humanidade do ministro da Justiça, Tarso Genro. A decisão ainda será julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

“A decisão do ministro Tarso Genro é bem fundamentada. Ele analisou todos os documentos. Não foi uma leitura superficial. E a perseguição política está provada nos documentos. Acho que o gesto do ministro Genro foi de coragem e de humanidade”, disse o italiano, completando que está confiante na decisão do STF. “O Brasil me concedeu meu refúgio político. O procurador-geral da República deu parecer favorável ao refúgio. Acho que o Supremo irá na mesma direção, que já tomou em outros casos”.

Durante a entrevista à revista Istoé, Cesare Battisti revelou como se deu sua fuga para o Brasil. Devido aos crimes que é acusado, o ex-militante político chegou a ser preso na Itália, mas fugiu de lá no início dos anos 80. Escondeu-se na França e, depois, no México. Anos depois, graças à doutrina Mitterrand, que protegia ex-guerrilheiros dispostos a renunciar à luta armada, Battisti obteve status de refugiado político na França. No País, ele viveu 11 anos, casou-se e teve duas filhas. No entanto, em 2006, o italiano teve que voltar a fugir quando o governo de Jacques Chirac decidiu rever a doutrina Mitterrand.

“A ideia de minha fuga para o Brasil foi de um integrante do serviço secreto da França. No escritório de meus advogados franceses, um deles me disse que a Itália estava pressionando, por causa das denúncias que eu fazia em meus livros. E ele me falou do Brasil, lembrou que havia muitos refugiados italianos no Brasil. Eu, por minha vez, me lembrei de tudo que tinha ouvido falar sobre o Brasil quando vivi no México”, contou. “Uma semana depois, ele mandou outra pessoa me entregar um passaporte, italiano, com minha foto e meus dados”.

Prisão e futuro

Battisti revelou à Istoé que ao desembarcar no Aeroporto de Fortaleza, no Ceará, funcionários do terminal suspeitaram de seu passaporte. Ele acredita que a partir daí começou a ser monitorado no Brasil até ser preso em seu apartamento em Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, em 2007. O italiano foi levado para o presídio da Papuda, no Distrito Federal, onde aguarda a resolução da crise entre Brasil e Itália.

“De manhã tem café. Os agentes passam o café às 7h10. Neste momento a gente tem que estar acordado e responder à conferência. Fico dentro da cela. Dorme-se com cela trancada. A cela é aberta para o café da manhã. A gente toma um copo de leite de soja. Tem café, mas tem que comprar na cantina”, relatou. “O banho de sol, de segunda a sexta, termina às 4 da tarde. Todo mundo volta para a cela, onde cada um faz o que quiser. Lê, vê televisão. Antes das 7h30 eu não ligo a televisão. A televisão é do preso. Meu companheiro de cela também não gosta de televisão o dia todo. Isso é bom para mim, que gosto de ler e escrever”, completou.

O ex-militante político contou ainda à revista que se pudesse rever sua vida não mudaria suas ideias. De acordo com Battisti, ele mudaria os meios para alcançar os resultados. “Eu continuo sendo um comunista de verdade, não no sentido partidário. As minhas ideias não mudaram. Continuo pensando que tem muita injustiça social, que a humanidade tem ainda muito a fazer para se desenvolver. Minha maneira de intervir nisso é através da escrita, do voluntariado”, finalizou.


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